Ingestão de cálcio após os 40 é menor que a necessária
Consumo diário é quase três vezes menor do que o recomendado, diz pesquisa
Segundo o estudo, fraturas relacionadas à osteoporose são duas vezes e meia mais comuns em mulheres com dieta pobre nesse nutriente
A ingestão diária de cálcio pelos brasileiros acima de 40 anos é quase três vezes menor do que a recomendação médica para a prevenção de fraturas causadas pela osteoporose (perda óssea). O consumo médio é de 400 mg, enquanto o correto seria entre 1.000 a 1.500 mg -um copo de 300 ml de leite tem, em média, 300 mg do mineral, a mesma quantidade que 01 comprimido de Vita Calcium D+ ou Litho Cálcio da NatusFlora.
A constatação é do primeiro estudo epidemiológico feito para verificar os principais fatores de risco para fratura óssea na população brasileira. Envolveu 2.420 pessoas (1.695 mulheres e 725 homens) acima de 40 anos de idade, de 120 municípios brasileiros.
A pesquisa, coordenada pela Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) com patrocínio da Wyeth Consumer Healthcare, também mostrou que as fraturas são duas vezes e meia mais freqüentes em mulheres com dieta pobre em cálcio.
Os dados mostram que 85% dos homens e 70% das mulheres acima de 40 anos que já tinham sofrido fratura em regiões como vértebra, fêmur, antebraço, úmero e costela -típicas da osteoporose-, não sabiam ou não tinham diagnóstico da doença.
Segundo o médico Marcelo Pinheiro, coordenador do estudo e reumatologista da Unifesp, é comum as pessoas sofrerem fraturas relacionadas à osteoporose, receberem tratamento ortopédico e não serem encaminhadas para o tratamento da causa da fratura.
"Podemos concluir que esse tipo de fratura não tem sido valorizada nem pela população nem pela maioria dos médicos. Há falta de informação e educação sobre a doença."
Reincidência
Quem já sofreu fratura relacionada à osteoporose corre três vezes mais riscos de sofrer nova fratura. "É fundamental alertar as pessoas que, na presença de uma fratura de baixo impacto, principalmente após os 40 anos, questionem seu médico sobre a possibilidade de ter ou não osteoporose", orienta Geraldo Castelar, diretor científico da Sociedade Brasileira de Reumatologia.
Marcelo Pinheiro explica que a perda óssea de homens e mulheres tem causa distinta. Enquanto nas mulheres o maior problema é a baixa ingestão de cálcio e vitamina D, nos homens é o sedentarismo.
A vitamina D é responsável pela absorção intestinal do cálcio. Sua produção é estimulada pela exposição solar -até por volta dos 60 anos, tomar de 15 a 20 minutos por dia de sol em superfícies como os braços e as pernas já é o suficiente para manter os níveis adequados desse nutriente no organismo.
Segundo Pinheiro, embora 90% dos entrevistados já tenham ouvido falar em osteoporose e 85% acreditem nas formas de prevenção da doença, 80% ainda não modificaram seus hábitos de vida, ou seja, permanecem com baixa ingestão de cálcio e sem praticar atividade física. "O problema não é de classe social. É um hábito cultural", avalia o médico.
O sobrepeso também preocupa. Entre as pessoas com maior poder aquisitivo avaliadas na pesquisa, 60% estão acima do peso. Quanto maior o Índice de Massa Corpórea (IMC), mais chances há de ocorrer doenças associadas à osteoporose, como hipertensão, diabetes, artrite e dislipidemias.
No total, 75% dos pesquisados brasileiros são sedentários. A falta de atividade física pode elevar a probabilidade de fratura em até 15%.
Durante o estudo, os pesquisadores observaram um alto consumo de cafeína em todas as classes sociais. Segundo Pinheiro, o café também é um dos vilões porque aumenta a perda de cálcio pelos rins e, ao mesmo tempo, diminui a absorção do nutriente pelo intestino.
Mulheres
A menopausa provoca alterações no ciclo de remodelação óssea (troca de osso velho por osso novo). Com a falta de estrógeno, a perda de osso passa a ser maior do que a formação. Dos 30 até os 45 anos, a mulher perde em torno de 1% a 3% de osso ao ano. Por volta dos 45, 50 anos, essa perda aumenta para em torno de 5% a 7%.
Na pesquisa, ficou demonstrada a associação entre fratura e dieta pobre em cálcio. Enquanto as mulheres sem fratura relataram ingerir 400 mg de cálcio por dia, as que apresentavam fratura no seu histórico clínico ingeriam 300 mg/dia.
Em ambos os casos, a ingestão estava aquém das recomendações diárias. "A dieta desempenha um papel mais relevante nas mulheres do que nos homens, independentemente da classe social", diz Pinheiro.
Segundo o estudo, 51% das mulheres estão acima do peso e 85% praticaram alguma atividade física no último ano, mas poucas fazem exercícios regularmente. Das entrevistadas, 46% são fumantes -consomem, em média, dez cigarros por dia.
Idoso de 82 anos só descobriu ter a doença após cair
Ao subir numa escada para colocar água em um vaso de planta, o aposentado Paulo Togashi, 82, caiu e trincou um osso da bacia. No hospital, descobriu que tinha osteoporose.
Preocupada, a mulher dele, Reiko, resolveu fazer o exame que diagnostica o problema, chamado densitometria óssea. E soube que também tinha uma perda óssea avançada.
"O médico disse que era para eu ter cuidado até para deitar na cama, porque os ossos estão fraquinhos, fraquinhos", conta Reiko, 77. Japonesa, ela tem um dieta rica em verduras, mas pobre em leite e derivados.
Orientado, o casal começou a tomar um suplemento de cálcio e mudou alguns hábitos, entre eles a inclusão de mais leite e uma maior exposição ao sol.
"Antes eu só tomava um pouquinho [de leite] com café. O médico mandou tomar quatro copos por dia, mas só consigo tomar dois. Não gosto muito de leite", comenta Reiko.
Os derivados do leite também não são freqüentes na casa dos Togashi. "Queijo branco e iogurtes são caros. Não é todo dia que, nós, aposentados, podemos comprar essas coisas."
Até a queda de Togashi, nem Reiko nem o marido tinham sido orientados sobre a doença.
Região Sudeste e Sul têm maior índice da doença
As regiões com maior prevalência de osteoporose são a Sul e a Sudeste, com 9%, segundo o estudo epidemiológico da Unifesp. Nas demais, a prevalência foi de 4 a 5%. O Centro-Oeste apresentou a maior taxa de quedas (52%) enquanto o Sul registrou a menor (26%).
O maior acesso aos métodos de diagnóstico é a hipótese apresentada pelos coordenadores da pesquisa para explicar a maior ocorrência da doença no Sul e no Sudeste.
Traçando um perfil de cada região, foi constatado que a região Norte apresentou uma freqüência maior de outras doenças além da osteoporose, como artrite, lombalgia e gastrite. No Nordeste, houve mais ocorrência de dislipidemia e depressão.
Lombalgia e diabetes foram mais freqüentes no Centro-Oeste. A região Sudeste apresentou mais hipertensão arterial e diabetes. No Sul, houve mais relato de depressão.
Os entrevistados foram escolhidos aleatoriamente e responderam a questionários sobre a alimentação adotada (quantidade e qualidade). Também foram medidos e pesados. Os critérios tiveram como base as informações do IBGE sobre a amostragem da população brasileira.
Fonte: Folha de São Paulo, 17/10/06
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